“O Halloween é baseado principalmente no antigo rito celta do Samhain, ocorrendo de 31 de outubro para 1 de novembro. Nessa noite, o limiar entre o mundo dos vivos e dos antepassados mortos seria tão tênue que eles poderiam vir nos visitar, bem como também esse limiar poderia ser ultrapassado por outros tipos de espíritos. Um dos símbolos mais populares hoje em dia é a tal da abóbora (oca = hallow) decorada com rostos, que tradicionalmente seriam utilizadas com fogos ou velas no seu interior, como lanternas, para que os nossos antepassados encontrassem o caminho de volta para casa e pudessem nos visitar, saindo da escuridão e encontrando a luz. O uso de imagens assustadoras vem da intenção de afastar os espíritos maus.”

Na semana do Halloween a escola das crianças trabalha um pouco desse significado e isso reverberou em muita coisa aqui em casa.

Clara, minha filha, veio me perguntar por que sua avó e seu avô morreram sem ela os conhecer, dizendo ser injusto e perguntando se eles não conseguem vir nos visitar. Tivemos um momento muito bonito, nos abraçamos e choramos juntas. Ela disse muito do que eu tenho guardado em mim e escolho não olhar. Quantas vezes dentro de mim fiz essa mesma pergunta, “Por quê?” e questionei o mundo, Deus, o universo sobre se isso era justo ou não. Como sou adulta e racionalizo tudo sempre, me respondi que era parte da vida, quantas outras milhões de pessoas vivem situações muito mais injustas do que a minha? Me calei, calei essa minha indignação, aceitei a vida como ela é e guardei tudo isso dentro de mim. Até minha filha com toda a sensibilidade de uma criança de 6 anos me trazer todo esse questionamento. Me fez questionar a forma como eu lido com essa perda, com essa falta que é presente em minha vida desde muito nova e continua a ser presente hoje. Minha defesa foi não olhar, tentar viver uma vida normal mesmo com essa falta, não falar muito disso, acreditando que talvez assim quase fosse possível fingir que não existe. Mas existe! E quanto mais não falo mais isso insiste em aparecer, no meu corpo, na fala da minha filha, na minha alma, no meu coração. Depois dessa conversa com a Clara eu tive uma grande indigestão, tive azia, um mal estar generalizado no meu corpo e só me apetecia dormir. Passei um dia inteiro tentando digerir isso tudo. 

Hoje, no dia do Halloween da escola, Clara acordou sem querer usar sua fantasia de bruxa. Encrencou com a saia, encrencou com a temperatura da roupa, fez aquele drama e acabou indo sem fantasia e com uma roupa quente após uma hora e meia de birra e estresse matinal. 

Na hora não consegui ajudá-la a resolver sua questão com a roupa, me parecia “besteira de criança” e tratei como se assim fosse. 

Clara foi para a escola, contrariada, dizendo que não gosta de Halloween e dizendo preferir ficar em casa. 

Depois que ela saiu, fiquei com um nó na garganta e pensei em tudo que foi dito e sentido essa semana. Chorei, senti a falta dos meus pais, me permiti sentir. Me senti a pior mãe do mundo por não conseguir acolher na hora que isso veio na forma de birra da minha filha. Por que o choro eu consegui sentar junto e chorar mas a birra me tirou do lugar? São várias facetas de um mesmo sentimento que vive lá dentro dela e também dentro de mim. Nossos filhos não deixam nada passar batido, eles sentem e mostram da forma que podem.

Hoje senti que preciso ritualizar isso de alguma forma em minha família. Pesquisei a tradição mexicana do “dia de los muertos” e vou, junto com minha família, homenagear meus pais com um altar, velas e flores, quem sabe um bolo, uma fruta ou algo que sentirmos que faz sentido. O que importa vai ser a intenção de incluir eles na nossa vida, da forma que é possível hoje. Eles vivem dentro de mim, eu sei, mas acredito que resgatar suas memórias através de algum tipo de ritual pode ser importante para colocar luz sobre essa história que faz parte de quem somos.

A morte ainda é um tabu na nossa sociedade. Tem algo de estranho e misterioso que nos causa medo. Mas a morte faz parte da vida, vivemos esse ciclo sem fim de vida-morte-vida em tudo que é vivo. Quando entramos em contato com a natureza que nos cerca, podemos perceber esse movimento constante. Falar da morte precisa ser incluído na nossa vida, pois não falar só gera mais sombra, recalque, sintomas e sofrimento. Precisamos falar da morte até para poder celebrar a vida. 

Ana Luisa Dias Carneiro

Deixe um comentário