Tempos estranhos. Já estamos nós nos deparando com uma segunda onda desse vírus que chegou chegando esse ano e não quer ir embora. Parece que ele veio mexer com a base de nossas estruturas, na nossa capacidade de sentir segurança. Abala nossa segurança física, emocional, financeira… Será que vou pegar? Ficar doente? Comigo vai ser forte? Posso morrer? E meus familiares? Meu emprego? Minha sociedade?
Perdemos a falsa sensação de controle que tínhamos sobre tudo ao nosso redor. Perdemos a capacidade de nos planejar, de prever o que será possível ou não de ocorrer logo a seguir. Ontem meus filhos estavam na escola e eu podia minimamente planejar meu dia, meu trabalho, meus estudos. Hoje já não estão, amanhã estarão?
Hoje o vírus chegou perto de mim, bate aquele medo, será que peguei? Passei para alguém? …
Fui fazer exame laboratorial. Me senti num filme de ficção científica no qual todos usam máscaras, luvas, até macacões espaciais, ninguém se vê…
Não vemos sorrisos, não damos abraços, lavamos as mãos inúmeras vezes, álcool gel para todo lado, não vemos nossos parentes, viagens são impossibilitadas, vôos cancelados, parentes ficam doentes, alguns melhoram – que sorte, outros se vão. Tempos estranhos.
Uma tosse ou espirro se tornaram algo perigoso, uma dor de cabeça – um sintoma. Uns deixam de sentir cheiro ou gosto da comida, os prazeres ficam limitados, os encontros quase fora da lei.
Nossa responsabilidade aumentou, eu posso contrair o vírus e não sentir nada, mas o que pode acontecer com o meu vizinho, o caixa do mercado que frequento ou a professora da minha filha? Sinto na pele, pela primeira vez na vida, a premissa budista de que “somos todos um”, somos mesmo todos parte de um todo e cada escolha minha pode influenciar a vida de todos ao meu redor.
O que nos resta? Viver um dia de cada vez. Viver cada momento dentro das suas possibilidades. Tenho que ficar em casa? Então olho para a minha casa, para meus familiares e também para mim. Vejo esse momento como um pedido de volta para nossa casa interna, com possibilidade de conexão profunda com nosso ser e com todos os outros ao nosso redor.
Tempos estranhos sim, mas que nos pede algo de humano, de empático com os outros e com nós mesmos. Respeitar nossos limites, acolher o que sentimos, equilibrar nosso tempo interno e externo, nossas expectativas e a realidade possível.
Ana Luisa Dias Carneiro

